Uma das perguntas que mais recebemos de quem planeja estudar na Austrália é direta: dá para trabalhar com visto de estudante? A resposta é sim — e é justamente isso que torna o país um dos destinos mais procurados por brasileiros. Mas existe uma diferença grande entre poder trabalhar e conseguir se sustentar apenas com esse trabalho. Neste guia, explicamos as regras do Student Visa Subclass 500 válidas em 2026, quanto se ganha na prática e onde estão as armadilhas.
O que o visto 500 permite em 2026
O visto de estudante australiano vem com permissão de trabalho automática — você não precisa solicitar nada extra. As condições, porém, são específicas e fiscalizadas. Desde a atualização das regras pós-pandemia, o limite é contado por quinzena, não por semana, o que dá alguma flexibilidade para quem trabalha em escalas irregulares.
- Limite de 48 horas por quinzena (fortnight) durante os períodos letivos do seu curso
- Horas ilimitadas durante as férias oficiais da instituição
- Você só pode começar a trabalhar depois que o curso tiver iniciado, mesmo que já esteja na Austrália
- Estudantes de mestrado por pesquisa e doutorado não têm limite de horas
- O limite vale para a soma de todos os empregos — dois trabalhos de 30 horas quinzenais somam 60 e violam a condição
- Trabalho voluntário genuíno e não remunerado geralmente não conta no limite
O que conta (e o que não conta) no limite
Nem toda atividade entra na conta das 48 horas. Entender isso evita tanto multas quanto a perda de oportunidades que você poderia aproveitar.
- Conta no limite: qualquer trabalho remunerado durante o período letivo, em uma ou várias empresas somadas.
- Não conta: trabalho voluntário genuíno e não remunerado para organizações sem fins lucrativos.
- Não conta: estágios obrigatórios que fazem parte do currículo do seu curso (work placements formais).
- Sem limite nas férias: durante os breaks oficiais do calendário acadêmico você pode trabalhar full-time.
- Sem limite o ano todo: alunos de mestrado por pesquisa e doutorado, depois de iniciado o curso.
Mestrado por pesquisa e doutorado
Se você foi para a Austrália em um programa de pesquisa de pós-graduação (Master by Research ou PhD), as regras são mais flexíveis: após o início oficial do curso, não há teto de horas. Para cursos de inglês, ensino técnico (VET) e a maioria das graduações e mestrados por coursework, vale o limite de 48 horas por quinzena.
Quanto dá para ganhar de verdade
O salário mínimo nacional da Austrália está em cerca de AU$ 24,95 por hora (valor vigente até junho de 2026 — o reajuste anual acontece sempre em julho). A maioria dos estudantes trabalha como casual, categoria que recebe um adicional de 25% justamente por não ter férias e licenças pagas. Na prática, isso significa um piso em torno de AU$ 31 por hora para trabalho casual — um dos mais altos do mundo.
Empregos mais comuns entre estudantes brasileiros
Hospitalidade lidera com folga: cafés, restaurantes, bares e hotéis contratam o ano todo e aceitam inglês intermediário em funções de cozinha e limpeza. Também são portas de entrada frequentes: limpeza comercial, entregas por aplicativo, estoque de supermercado, construção civil (com o certificado White Card) e cuidado de idosos para quem estuda na área. Quem chega com inglês avançado consegue posições de atendimento, que pagam gorjetas e abrem rede de contatos.
Dá para se sustentar só com o trabalho de estudante?
Vamos às contas, com estimativas conservadoras. Trabalhando o limite de 48 horas por quinzena a AU$ 31/h casual, a renda bruta fica em torno de AU$ 1.490 por quinzena, ou cerca de AU$ 3.200 por mês antes de impostos. O custo de vida de um estudante em Sydney ou Melbourne — quarto compartilhado, transporte, alimentação e celular — fica tipicamente entre AU$ 2.200 e AU$ 2.800 mensais (estimativa). Ou seja: o trabalho no limite legal cobre o custo de vida na maioria dos casos, mas não cobre as mensalidades do curso. É por isso que o governo exige comprovação financeira na aplicação do visto: o planejamento não pode depender 100% do trabalho local.
Burocracia antes do primeiro emprego
Três itens resolvem quase tudo: o TFN (Tax File Number), solicitado gratuitamente no site da ATO depois que você chega — sem ele, o imposto retido na fonte é muito maior; uma conta bancária australiana, que dá para abrir online antes mesmo do embarque; e um currículo no formato local, curto e com referências. Empregadores também depositam a superannuation (previdência) de cerca de 12% sobre o salário em um fundo no seu nome — esse valor pode ser parcialmente resgatado quando você deixa o país definitivamente.
Onde os brasileiros realmente conseguem vaga
Apesar de existirem oportunidades em escritório, a esmagadora maioria dos brasileiros recém-chegados entra pelo setor de serviços. Três frentes concentram a maior parte das contratações de estudantes internacionais.
Hospitalidade
Cafés, restaurantes, bares e hotéis são o ponto de entrada mais comum. As funções mais buscadas para iniciantes são:
- Barista (com curso e RSA, paga melhor)
- Café all-rounder (atendimento, caixa e apoio)
- Kitchen hand (lavagem e prep básica)
- Waiter ou waitress (exige inglês intermediário a fluente)
- Bartender (RSA obrigatório)
- Housekeeping em hotéis
Retail e cuidados
A segunda frente é varejo (supermercados, lojas, postos) e a terceira é care work — aged care, NDIS, childcare. Esta última paga melhor e exige certificações como o Cert III em Individual Support ou em Childcare, além do Working with Children Check, que muitos brasileiros tiram já em solo australiano nos primeiros meses.
Como conciliar curso e trabalho sem comprometer o visto
O erro clássico é entrar correndo no primeiro job, aceitar mais horas do que cabe e quebrar a regra das 48h. O visto Subclass 500 também exige presença e desempenho acadêmico: faltas excessivas ou reprovação em múltiplas matérias podem disparar um report do provedor de curso para o Home Affairs.
- Anote sua fortnight oficial — não confie no mês comercial
- Peça payslip todo turno e arquive em pasta na nuvem
- Mantenha frequência igual ou superior a 80% no curso
- Recuse turnos extras que cruzem a virada da quinzena
- Tire ABN apenas se for trabalhar como autônomo de verdade — não use para mascarar horas
- Use as férias oficiais do curso para pegar full-time temporário
Erros que custam caro
Os três problemas mais comuns que vemos: aceitar trabalho pago em dinheiro por fora, abaixo do mínimo — além de ilegal, deixa você sem proteção trabalhista e sem histórico para futuros vistos; ultrapassar o limite de horas somando dois empregos, achando que ninguém vai cruzar os dados; e deixar a frequência do curso cair para trabalhar mais, o que viola outra condição do visto e pode levar ao cancelamento da matrícula pela própria escola. O visto 500 é, antes de tudo, um visto de estudos — o trabalho é o complemento, não o centro.
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